A deferência do STF à administração pública no Brasil constitui um problema?
Causas e sintomas da insatisfação ao comportamento deferente
DOI:
https://doi.org/10.9732/2024.V128.1107Palavras-chave:
1. Deferência judicial; 2. Judicialização da política; 3. Precedentes vinculantes; 4. Common law; 5. Civil law., 1. Judicial deference; 2. Judicialization of politics; 3. Binding precedents; 4. Common law; 5. Civil law.Resumo
Tendo como campo de estudo o Direito e Desenvolvimento e utilizando-se do método jurídico-exploratório, investiga-se nesse artigo dois problemas: 1) se a deferência do STF ao Executivo é prejudicial à proteção dos direitos fundamentais. 2) Por que a literatura jurídica brasileira critica essa deferência. Para o primeiro problema, os resultados revelam que essa deferência não é intrinsecamente problemática, pois reflete, especialmente, a busca por legitimidade política e estabilidade democrática por parte das cortes superiores. Em relação ao segundo problema, atribui-se a insatisfação com a deferência à falta de compreensão da relação entre Direito e política no contexto brasileiro, que surge na transição não mediada para a República em 1889, derivada da tensão entre o poder central e as oligarquias regionais ao término do período imperial. Conclui-se que o desconforto da doutrina brasileira em relação à deferência do STF ao Executivo remonta, particularmente, à implantação do regime republicano no Brasil, ao final do século XIX, quando, sem uma tradição da doutrina do stare decisis e sem uma compreensão mais profunda do common law, abandonou-se o paradigma de jurisdição administrativa (Conselho de Estado) que equilibrava as relações entre as esferas jurídica e política.
Referências
ANDRADE, Louise Dantas de. Agenda-Setting: análise do comportamento do Supremo Tribunal Federal no controle de constitucionalidade concreto. 2015. 98 f. Dissertação de Mestrado - Universidade Católica de Pernambuco, Recife, 2015. Disponível em: http://tede2.unicap.br:8080/handle/tede/552.
ARANTES, Rogério Bastos. Judiciário & Política no Brasil. São Paulo: Educational Book Publishers, 1997.
ARANTES, Rogério Bastos. Jurisdição política constitucional. In: SADEK, Maria Tereza (org.). Reforma do judiciário. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2010.
BARROSO, Luís Roberto. Judicialização, ativismo judicial e legitimidade democrática. Suffragium - Revista do Tribunal Regional Eleitoral do Ceará, Fortaleza, v. 5, n. 8, p. 11–22, 2009.
BUSTAMANTE, Thomas da Rosa de. Teoria do precedente judicial: a justificação e a aplicação de regras jurisprudenciais. São Paulo: Noeses, 2012.
CAENEGEM, RC van. Juízes, legisladores e professores. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.
CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite imperial. 4a ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
CAZETTA JÚNIOR, José Jesus. A ineficácia do precedente no sistema brasileiro de jurisdição constitucional (1891-1993): contribuição ao estudo do efeito vinculante. 2004. Doutorado - Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004.
COSTA, Alexandre; BENVINDO, Juliano. A Quem Interessa o Controle Concentrado De Constitucionalidade? - O Descompasso entre Teoria e Prática na Defesa dos Direitos Fundamentais (Who is Interested in the Centralized System of Judicial Review?-The Mismatch between Theory and Practice in the Protection of Basic Rights). [s. l.], 2014. Disponível em: http://ssrn.com/abstract=2509541. Acesso em: 1 set. 2022.
CROSS, Frank B. Law is politics. In: GEYH, Charles Gardner (org.). What’s law got to do with it? : what judges do, why they do it, and what’s at stake. Stanford, California: Stanford University Press, 2011. p. 92–112.
CUNHA, Sérgio Sérvulo da. A arcaica súmula vinculante. In: RENAULT, Sérgio Rabello Tamm; BOTTINI, Pierpaolo (org.). Reforma do Judiciário. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 29–52.
DA ROS, Luciano. Em que ponto estamos? Agendas de pesquisa sobre o Supremo Tribunal Federal no Brasil e nos Estados Unidos. In: ENGELMANN, Fabiano (org.). Sociologia política das instituições judiciais. Porto Alegre: Editora da UFRGS/CEGOV, 2017. p. 57–97. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/213273. Acesso em: 25 ago. 2022.
DA SILVA CARMIGNANI, Maria Cristina. O direito judiciário lusitano-os assentos da casa da suplicação. Revista da Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, [s. l.], v. 111, p. 19–29, 2017.
DAHL, Robert A. Decision-making in a democracy: The Supreme Court as a national policy-maker. J. Pub. L., [s. l.], v. 6, p. 279–295, 1957.
DAVID, Raphaela Borges. Decisão jurídica e governabilidade no diálogo entre judiciário e executivo. 2018. 226 f. Doutorado - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2018. Disponível em: http://hdl.handle.net/1843/BUOS-BAMH6J. Acesso em: 28 ago. 2023.
DE ASSIS, Guilherme Bacelar Patricio. Precedentes vinculantes em recursos extraordinário e especial repetitivos. 2016. 296 f. Dissertação de Mestrado - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2016. Disponível em: http://hdl.handle.net/1843/BUOS-ASJGET. Acesso em: 3 jul. 2023.
DIAS, Maria Tereza Fonseca; GUSTIN, Miracy Barbosa de Sousa. (Re)pensando a pesquisa jurídica: teoria e prática. 2a ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2006.
DIDIER JR, Fredie; SOUZA, Marcus Seixas. O respeito aos precedentes como diretriz histórica do direito brasileiro. Revista de Processo Comparado, São Paulo, v. 2, n. Ano 1, p. 99–120, 2015.
EPSTEIN, Lee; WEINSHALL, Keren. The Strategic Analysis of Judicial Behavior: A Comparative Perspective. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2021. (Cambridge Elements - Elements in Law, Economics and Politics). Disponível em: https://doi.org/10.1017/9781009049030. Acesso em: 30 ago. 2022.
FALCÃO, Joaquim et al. II relatório Supremo em Números: o Supremo e a Federação. Rio de Janeiro: Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getulio Vargas, 2013. (FGV DIREITO RIO - Série Novas ideias em Direito). Disponível em: http://hdl.handle.net/10438/11544. Acesso em: 2 mar. 2022.
FALCÃO, Joaquim et al. II Relatório Supremo em Números: o Supremo e a Federação entre 2010 e 2012. Rio de Janeiro: Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getulio Vargas, 2014. (FGV DIREITO RIO - Série Novas ideias em Direito). Disponível em: http://hdl.handle.net/10438/11544. Acesso em: 16 maio 2022.
FALCÃO, Joaquim; CERDEIRA, Pablo de Camargo; ARGUELHES, Diego Werneck. I Relatório Supremo em Números - o Múltiplo Supremo. Rio de Janeiro: Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getulio Vargas, 2011. (FGV DIREITO RIO - Série Novas ideias em Direito). Disponível em: http://hdl.handle.net/10438/10312. Acesso em: 26 fev. 2022.
FEREJOHN, John; WEINGAST, Barry R. A positive theory of statutory interpretation. International Review of Law and Economics, [s. l.], v. 12, n. 2, p. 263–279, 1992.
GAROUPA, Nuno; LIGUERRE, Carlos Gomez. The syndrome of the efficiency of the common law. BU Int’l LJ, [s. l.], v. 29, p. 287, 2011.
KAPISZEWSKI, Diana. How courts work: institutions, culture, and the Brazilian Supremo Tribunal Federal. In: COUSO, Javier; HUNEEUS, Alexandra; SIEDER, Rachel (ed.). Cultures of Legality: Judicialization and Political Activism in Latin America. Cambridge UK: Cambridge University Press, 2010. v. 51, p. 51–77.
KOERNER, Andrei. Judiciário e cidadania na Constituição da República Brasileira (1841-1920). Curitiba: Juruá, 2010.
LOBO, Judá Leão. Estudo sobre “O oráculo de delfos: o conselho de estado no Brasil-Império”, de José Reinaldo de Lima Lopes. Revista Direito e Práxis, [s. l.], v. 9, p. 1363–1400, 2018.
LOPES, José Reinaldo de Lima. O Oráculo de Delfos: Conselho de Estado no Brasil-Império. São Paulo: Editora Saraiva, 2010.
LUNARDI, Fabrício Castagna. Comportamento estratégico do STF nas questões de interesse governista: ativismo judicial ou prudência?. Revista Brasileira de Estudos Politicos, [s. l.], v. 123, p. 177–210, 2021.
LYNCH, Christian Edward Cyril. Da monarquia à oligarquia: história institucional e pensamento político brasileiro (1822-1930). São Paulo: Alameda, 2014.
MAXIMILIANO, Carlos. Hermenêutica e aplicação do direito. Porto Alegre: Edição da Livraria do Globo - Barcellos, Bertaso & Cia., 1925.
MOUFFE, Chantal. O regresso do político. Lisboa: Gradiva Publicações, 1996.
NOBRE, Marcos; RODRIGUEZ, José Rodrigo. “Judicialização da política”: déficits explicativos e bloqueios normativistas. Novos estudos CEBRAP, [s. l.], p. 05–20, 2011.
NORTH, Douglass C. Institutions, institutional change and economic performance. New York: Cambridge University Press, 1990.
NUNES, Rodrigo M. Politics without insurance: democratic competition and Judicial Reform in Brazil. Comparative Politics, [s. l.], v. 42, n. 3, p. 313–331, 2010.
POGREBINSCHI, Thamy. Judicialização ou representação?: política, direito e democracia no Brasil. Rio de Janeiro: Elsevier Brasil, 2012.
POSNER, Richard A. Economic analysis of law. Ninth editioned. New York: Aspen Publishers, 2014.
RODRIGUES, Daniel dos Santos. Lições de Carl Schmitt & Chantal Mouffe: política, democracia e liberalismo. 1a ed. Belo Horizonte, São Paulo: D’Plácido, 2020.
ROVER, Tadeu. Maioria dos juízes entende que não deve seguir jurisprudência, diz pesquisa. [S. l.], 2019. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2019-fev-11/juizes-entendem-nao-seguir-jurisprudencia-pesquisa. Acesso em: 12 jul. 2023.
SAMPAIO, José Adércio Leite. O Conselho Nacional de Justiça e a independência do Judiciário. Belo Horizonte: Editora Del Rey, 2007.
SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. 2a ed. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2018.
SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
SOUZA, Marcus Seixas. Os precedentes na história do Direito processual civil brasileiro: Colônia e Império. 2014. 196 f. Dissertação de Mestrado - Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2014.
TAYLOR, Matthew M. Judging policy: courts and policy reform in democratic Brazil. Stanford, California: Stanford University Press, 2008.
WHITTINGTON, Keith E. “Interpose your friendly hand”: Political supports for the exercise of judicial review by the United States Supreme Court. American political science review, [s. l.], v. 99, n. 4, p. 583–596, 2005.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Autores que publicam nesta revista concordam com os seguintes termos:
Os autores mantêm os direitos autorais e concedem à Revista Brasileira de Estudos Políticos o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution. Essa licença permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista, desde que sem fins comerciais.
É permitido ainda que outros distribuam, adaptem e criem a partir do seu trabalho, sem fins comerciais, desde que lhe atribuam o devido crédito pela criação original.
Autores têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não-exclusiva da versão do trabalho publicada nesta revista (ex.: publicar em repositório institucional ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial nesta revista.
Autores têm permissão e são estimulados a publicar e distribuir seu trabalho online após o processo editorial, já que isso pode gerar alterações produtivas, bem como aumentar o impacto e a citação do trabalho publicado.
Authors who publish in this journal agree to the following terms:
The authors maintain the copyright and grant the Brazilian Journal of Political Studies the right of first publication, with the work simultaneously licensed under the Creative Commons Attribution License. This license allows the sharing of the work with authorship recognition and initial publication in this journal, as long as it is not for commercial purposes.
It is also allowed that others distribute, adapt and create from their work, without commercial purposes, as long as they attribute due credit for the original creation.
Authors are allowed to enter into additional contracts separately for non-exclusive distribution of the version of the work published in this journal (e.g., publish in an institutional repository or as a book chapter), with authorship recognition and initial publication in this journal.
Authors are allowed and encouraged to publish and distribute their work online after the editorial process, as this can generate productive changes as well as increase the impact and citation of the published work.